Saúde mental é assunto de economia

A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade custam cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano

André Montes Claros · 5 min de leitura · Saúde

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Saúde mental também é assunto de economia

Quando se fala em saúde mental, a gente costuma pensar em consultório, remédio e momentos de crise. Há um lado menos visível: quando alguém adoece emocionalmente, o efeito chega ao trabalho, à renda da família e, somado, à economia do país.

Um estudo da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), feito com dados de 2019, estimou que problemas de saúde mental tiram 2,8% do PIB potencial do Brasil, algo perto de R$ 282 bilhões por ano. Pela mesma conta, são cerca de 801 mil postos de trabalho a menos e R$ 165 bilhões a menos na renda das famílias (1).

Números desse tamanho são difíceis de imaginar. Então vale olhar para uma pessoa.

A conta de Roberto

Roberto tem 47 anos e é supervisor de logística numa distribuidora. Tem dois filhos adolescentes e ajuda a pagar a casa de repouso da mãe.

No começo do ano passado, começou a acordar às três da manhã com a cabeça cheia e não dormir mais. Ficou mais irritado com a equipe. Passou a errar planilhas que fazia de olhos fechados e a refazer relatórios no fim de semana. Ele percebia, mas tinha um plano: aguentar até o fechamento do semestre e então procurar um médico.

Não deu tempo. Numa reunião de resultados, sentiu o peito apertar e o coração disparar. Achou que fosse infarto e foi parar no pronto-socorro. Era uma crise de ansiedade.

O psiquiatra o afastou por 60 dias. A empresa pagou os 15 primeiros; o resto ficou com o INSS. O benefício é calculado sobre a média das contribuições e não repõe o salário inteiro, e ainda houve a espera pela perícia. Em casa, a família cortou a viagem de julho e usou parte da reserva para manter a mensalidade da mãe em dia.

Roberto voltou ao trabalho e faz terapia toda quinta, no horário de almoço. Hoje diz que, se tivesse procurado ajuda na época da insônia, talvez nem precisasse ter parado. Talvez. Mas o plano de aguentar até o fim do semestre saiu bem mais caro do que ele imaginava.

Roberto não é exceção

Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais, cerca de 15% a mais que no ano anterior (2). Ansiedade foi a quarta maior causa de afastamento no país, com 166.489 casos, e depressão a sexta, com 126.608 (3). E esses números ficam abaixo da realidade, porque afastamentos de até 15 dias, pagos pela empresa, não entram na conta do INSS (4).

No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade custam cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, perto de US$ 1 trilhão (5).

Esse prejuízo vem por dois caminhos, e a história de Roberto tem os dois. Os 60 dias longe do trabalho são o absenteísmo. Os meses anteriores, em que ele ia todo dia mas rendia cada vez menos, são o presenteísmo, que quase nunca entra nas estatísticas oficiais.

Por que isso pesa mais depois dos 40

Depois dos 40, é comum as responsabilidades se acumularem: carreira, contas, filhos, às vezes pais idosos. É justamente quando ignorar o esgotamento sai mais caro.

  • Queda de produtividade pode afetar promoções e a estabilidade no emprego.
  • Um afastamento longo mexe com o orçamento da família, como mexeu com o de Roberto.
  • Estresse crônico aumenta o risco de problemas físicos, como hipertensão e insônia.

O que fazer hoje

  • Repare nos sinais. Sono ruim, irritação, dificuldade de concentração e cansaço que não passa com descanso merecem atenção, principalmente quando duram semanas.
  • Não espere "aguentar até". Até o fechamento, até as férias, até o projeto acabar. Desconfie de qualquer plano de cuidar da saúde que tenha data marcada para depois. Conversar cedo com um médico ou psicólogo pode evitar um afastamento maior.
  • Organize o básico financeiro. Saber quanto entra, quanto sai e quanto há de reserva tira de cima uma das maiores fontes de ansiedade, e ajuda se um afastamento acontecer.
  • Crie limites concretos. Um horário a partir do qual não se lê e-mails, menos notícias antes de dormir, uma pausa de verdade no meio do dia.
  • Fale com alguém de confiança. Isolamento costuma piorar o quadro, e o apoio de pessoas próximas faz parte da recuperação.

Para levar

Cuidar da saúde mental protege também o trabalho e o bolso. A OMS estima que cada dólar investido em tratamento de depressão e ansiedade volta como cerca de quatro dólares em saúde e produtividade (6).

Se o sofrimento está atrapalhando seu sono, seu trabalho ou suas relações, procure um profissional de saúde. Em sofrimento intenso, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.

Roberto descobriu da forma mais cara que a hora certa de pedir ajuda é antes da data marcada.

Referências

Referências

  1. Fiemg, estudo sobre saúde mental e PIB (reportagem (abre em uma nova aba); material da Fiemg (abre em uma nova aba)).
  2. Ministério da Previdência Social, dados de 2025 (Monitor Mercantil (abre em uma nova aba)).
  3. Ranking de afastamentos 2025 (Outra Saúde (abre em uma nova aba)).
  4. Afastamentos de até 15 dias fora da conta do INSS (Bem Paraná (abre em uma nova aba)).
  5. OMS e OIT, comunicado de 28/09/2022 (WHO (abre em uma nova aba)).
  6. OMS, estimativa de retorno do investimento em tratamento de depressão e ansiedade