Escrever para compreender: como o diário pode fortalecer a resiliência emocional
Algumas experiências são difíceis de explicar.
André Montes Claros e equipe · 6 min de leitura · Espiritualidade
Algumas experiências são difíceis de explicar.
Às vezes, sabemos que algo nos incomoda, mas não conseguimos entender exatamente por quê. Em outras situações, os pensamentos se acumulam, as emoções se misturam e parece difícil encontrar uma maneira de organizar tudo o que estamos sentindo.
Uma possibilidade simples pode ajudar nesse processo: escrever.
Colocar sentimentos e experiências no papel podem mudar a maneira como nos relacionamos com o fato acontecido.
Pesquisas sobre escrita expressiva, como demonstra Pennebaker, indicam, que escrever sobre experiências emocionalmente difíceis pode favorecer mecanismos de enfrentamento mais eficazes e contribuir para a resiliência emocional.
Escrever ajuda a organizar aquilo que sentimos
Quando uma experiência difícil acontece, ela pode permanecer em nossa mente de maneira fragmentada.
Pensamentos, lembranças, emoções e preocupações aparecem ao mesmo tempo.
Ao escrever, somos obrigados a transformar parte dessa experiência em palavras.
Esse simples movimento pode criar uma certa distância entre nós e aquilo que estamos vivendo.
Em vez de apenas sentir:
"Isso está acontecendo comigo."
Começamos a observar:
"O que exatamente aconteceu?"
"Como isso me afetou?"
"Por que essa situação foi tão importante para mim?"
"O que posso aprender com ela?"
Uma nova perspectiva sobre acontecimentos difíceis
Escrever também pode favorecer aquilo que podemos chamar de reinterpretação cognitiva.
Isso significa olhar para uma situação por diferentes perspectivas.
Uma situação que inicialmente parecia completamente fora de controle pode, depois de algum tempo e reflexão, revelar aspectos que ainda não havíamos percebido.
Num exemplo à frente, você verá como o tempo nos ajuda nessa reinterpretação.
Escrever ajuda a encontrar caminhos
Quando estamos sob pressão, é comum enxergar apenas o problema.
A escrita pode criar um espaço para pensar sobre possibilidades.
Ao colocar uma dificuldade no papel, podemos perguntar:
O que está sob meu controle?
O que não está?
Quais alternativas eu tenho?
O que posso fazer agora?
Existe alguma coisa que essa experiência está tentando me ensinar?
Transformando experiências em uma narrativa
Um dos conceitos importantes associados à escrita expressiva é a construção de uma narrativa pessoal.
Experiências emocionalmente intensas podem permanecer na memória como acontecimentos desconectados.
Ao escrever, começamos a estabelecer relações entre acontecimentos, pensamentos e sentimentos.
A experiência passa a fazer parte de uma história que conseguimos compreender melhor.
Algumas se tornarão contos divertidos, outras rituais de passagem. Algumas cicatrizes, outras piadas para contar aos amigos.
Dar nome às emoções é uma forma de conhecê-las
Frustração, medo, raiva, tristeza, culpa, ansiedade.
Alegria, segurança, esperança, vitória.
Você conseguiria escrever sobre um momento em viveu cada uma delas? E resumir uma situação nomeando-a com um sentimento que a representa?
Às vezes, sentimos várias emoções simultaneamente sem conseguir distingui-las.
Escrever ajuda a identificar essas emoções e perceber os acontecimentos que as desencadeiam.
Ao revisar aquilo que escrevemos, talvez encontremos padrões.
Situações repetidas com algumas pessoas ou ambientes.
Pensamentos recorrentes durante as dificuldades.
Releia para se conhecer melhor.
Escrever desacelera a mente
O ato de escrever exige atenção.
Enquanto colocamos uma experiência em palavras, diminuímos o ritmo e direcionamos nossa atenção para aquilo que estamos pensando e sentindo naquele momento.
Essa pausa favorece uma percepção mais consciente do estado emocional.
Resiliência não significa não sofrer
Ser resiliente não significa permanecer forte o tempo inteiro ou não sentir tristeza, medo ou frustração.
Resiliência está relacionada à capacidade de lidar com dificuldades
A escrita é uma entre outras ferramentas que você pode utilizar para continuar avançando apesar das dificuldades.
Comece pelo que você consegue colocar em palavras
Você não precisa escrever todos os dias.
Não precisa transformar cada experiência em uma grande reflexão.
Quando passar por uma experiência que te traga desconforto ou satisfação, separe um tempo para escrever. Autoconhecimento sempre começa com separar um tempo para cuidarmos de nós.
Comece com algumas linhas:
O que aconteceu hoje?
Como isso me fez sentir?
O que está ocupando minha cabeça neste momento?
Existe alguma coisa que eu gostaria de compreender melhor?
Veja a seguir o exemplo de João (nome fictício), baseado em uma história real.
O assalto e a página em branco
Sofrer um assalto traz sentimentos diversos como ódio, sensação de injustiça e vulnerabilidade, julgamentos impulsivos e reações físicas que podem variar conforme o valor do bem perdido.
Ao passar por um assalto à mão armada onde ele e seus amigos foram rendidos por quatro criminosos, João teve seu carro tomado. Ele sentiu medo, raiva e impotência.
Ao relatar o caso a seu pai, chorou copiosamente e precisou ser consolado. Passou um tempo recluso, sem querer sair de casa, apenas sentindo raiva.
Recebeu a indenização da seguradora, mas isso não alterou a sua indignação.
Alguns anos depois, após reviver e revisitar esse ódio várias vezes ao narrar o fato aos amigos, foi aconselhado por um deles a escrever o ocorrido em uma página de caderno em branco.
Começou assim:
- Fui roubado junto com outros amigos e perdi meu carro. Por sorte, ninguém se machucou.
Respondendo às perguntas:
Como isso me fez sentir?
- Muita raiva e ódio. Vontade de matar todos os criminosos do mundo.
Um dia depois de escrever o fato, pôde completar:
Qual o dano permanente ficou desse fato?
-
Na verdade não houve um dano material permanente. A seguradora pagou a indenização e adquiri um outro carro mais moderno completando a diferença.
-
Os danos permanentes foram emocionais: o ódio aos bandidos e o medo de novos assaltos.
Mais um tempo depois, escreveu.
- Pensando bem, não foi por sorte que ninguém se machucou. Enquanto um dos bandidos estava apertando a faca na minha barriga exigindo mais dinheiro, minha amiga Nandinha gritou “Não tem mais dinheiro! Toma meu relógio.” Isso fez o bandido se desvencilhar, parar de apertar minha barriga com a faca e pegar o relógio dela. Então não foi por sorte, foi por ação dela. Tenho que retribuí-la.
Muito tempo depois ao ler a história, escreveu.
-
É importante termos seguro para coberturas em imprevistos.
-
É uma pena que em nosso país a falta de oportunidade para todos, facilita que alguns caiam na tentação da vida criminosa. O que posso fazer para mudar essa situação?
Para treinar e aperfeiçoar essa técnica, leia o nosso artigo Escrever para aliviar: o exercício de quatro dias.
Referências
-
PENNEBAKER, James W.; BEALL, Sandra K. Confronting a traumatic event: toward an understanding of inhibition and disease. Journal of abnormal psychology, v. 95, n. 3, p. 274, 1986.
-
PENNEBAKER, James W.; SMYTH, Joshua M. Opening up by writing it down: How expressive writing improves health and eases emotional pain. Guilford Publications, 2016.
-
**BAIKIE, Karen A.; WILHELM, Kay. Emotional and physical health benefits of expressive writing. Advances in psychiatric treatment, v. 11, n. 5, p. 338-346, 2005. **