Medo político e redes sociais: como sair da espiral do algoritmo

Sente que o país está à beira do abismo a cada eleição? Entenda como as redes ampliam o medo político e veja seis atitudes para recuperar a calma.

André Montes Claros e equipe · 6 min de leitura · Saúde

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Oct 25, 2026 · @Daniel

Medo político e redes sociais: como sair da espiral do algoritmo

Em época de eleição, é comum ir dormir com a sensação de que o país está à beira do abismo. Parece que as pessoas que concordam com o lado político contrário ao nosso são tolos ou mal intencionados e não percebem que estão colaborando para a destruição de tudo. Parte desse medo tem razão de ser, porque riscos políticos existem. Outra parte vem de uma dieta constante de indignação, ameaça e catástrofe servida pelas redes sociais. Para ter um dia melhor vale aprender a separar o que está acontecendo do que o algoritmo amplifica.

A uma da manhã de Cláudia

Cláudia tem 30 anos e é enfermeira num hospital público de Belo Horizonte. Durante a campanha eleitoral, criou o hábito de entrar nas redes sociais antes de dormir. Quando via, era uma da manhã, e ela tinha assistido a vídeos cortados de debate, lido comentários furiosos, respondido a vários comentários e compartilhado dois posts com o coração acelerado.

No dia seguinte, no plantão, nada parecia ter mudado. Os pacientes eram os mesmos, a colega que vota diferente dela trouxe bolo para a equipe e o ônibus passou no mesmo horário de sempre. O país do feed e o país real não pareciam os mesmos.

O medo como produto digital

As plataformas foram desenhadas para prender a atenção e descobriram que tanto a raiva quanto a hostilidade aumentam o engajamento. Em fevereiro de 2023, pesquisadores utliizaram 806 usuários do Twitter/X, para comparar a timeline montada pelo algoritmo com a timeline em ordem cronológica. O algoritmo deu maior preferência a posts com raiva e animosidade contra o grupo político rival. Quem leu esses posts passou a ver o adversário de forma mais negativa (Milli e colegas (abre em uma nova aba)).

Isso não quer dizer que todo conteúdo negativo seja falso, nem que não existam riscos políticos reais. Quer dizer que o feed mostra uma amostra torta: o que é mais alarmante, ao invés daquilo que é o mais representativo. Um estudo publicado na PNAS mostrou que o algoritmo do Twitter dava alcance diferente a partidos e veículos de imprensa, ou seja, que a recomendação personalizada interfere em quais vozes políticas chegam a mais gente (Huszár e colegas (abre em uma nova aba); Ceron e colegas (abre em uma nova aba)).

Por que o adversário parece monstruoso

A psicologia política chama de polarização afetiva o fortalecimento do carinho pelo próprio grupo e do desprezo pelo grupo oposto. As pesquisas de Shanto Iyengar e colegas mostram que a identificação partidária funciona como identidade social. Ela cria um "nós contra eles", e mensagens que atacam o outro grupo tendem a reforçar a hostilidade (Annual Review of Political Science (abre em uma nova aba); Public Opinion Quarterly (abre em uma nova aba)).

Nesse estado, a gente deixa de ver eleitores de carne e osso, como a colega do bolo de Cláudia, e passa a ver uma caricatura. O medo de que "aquela pessoa" vença vira medo de uma ameaça total e imediata, mesmo quando a vida do dia a dia mudou bem menos do que o feed sugere. Parece uma final de campeonato.

A espiral do doomscrolling

Doomscrolling é o consumo compulsivo de notícias ruins. Ele costuma girar em círculo: a ansiedade leva a checar as redes, o conteúdo alarmante aumenta a sensação de urgência, e a urgência pede mais checagem. Um estudo encontrou associação entre ansiedade política e doomscrolling, e apontou a flexibilidade psicológica e a capacidade de lidar com as próprias emoções como fatores de proteção (Dublin Business School (abre em uma nova aba)).

A Organização Mundial da Saúde também alerta que o excesso de informação, incluindo a falsa ou enganosa, gera confusão e sofrimento psicológico (OMS (abre em uma nova aba); OMS Europa (abre em uma nova aba)). Na eleição, o efeito aumenta, porque cada post parece trazer uma promessa ou uma catástrofe nacional.

Como voltar à própria realidade

A ideia é continuar informado, só que mais devagar e de fontes variadas.

  • Crie janelas de notícia. Em vez de checar o celular o dia inteiro, reserve um ou dois horários curtos para fontes confiáveis. A Associação Americana de Psicologia recomenda limitar a exposição quando as notícias começam a atrapalhar a rotina (APA (abre em uma nova aba)). Se eu tivesse que escolher uma só mudança, seria tirar o celular do quarto à noite: é ali que a espiral costuma ficar mais funda.
  • Separe fato, previsão e catástrofe. Pergunte: o que já aconteceu? O que é uma projeção? O que é só o pior cenário possível?
  • Varie as fontes de propósito. Leia veículos com linhas editoriais diferentes e evite formar opinião só com cortes, memes e posts de indignação. Algumas linhas políticas criticam os órgãos de imprensa, tentando impedir que as pessoas chequem os fatos em outras fontes.
  • Confira antes de compartilhar. Verificar fonte, contexto, data e autoria ajuda a separar notícia verdadeira de falsa. Aprender sobre educação midiática melhoraram a capacidade de filtrar as informações conforme estudo com mais de 3900 pessoas (Communications Psychology (abre em uma nova aba); International Journal of Communication (abre em uma nova aba)).
  • Observe seu corpo. Se depois de 15 minutos de rede você está irritado, respondendo agressivamente a comentários, compartilhando vídeos de fontes duvidosas para amigos que pensam igual ou diferente de você, isso diz muito sobre o efeito dos conteúdos a que você está sendo exposto. Se a ansiedade durar semanas ou atrapalhar o sono e o trabalho, vale conversar com um médico ou psicólogo.
  • Volte à escala local. Converse com pessoas de verdade, cuide das relações próximas. Observe a sua rotina real. Se quiser se aprofundar ainda mais na sua realidade local, participe de uma causa concreta no seu bairro ou cidade. A APA sugere buscar pontos em comum e se envolver em ações comunitárias para reduzir o estresse político (APA (abre em uma nova aba)).

Leia os artigos*:* "Como lidar com a polarização sem perder sua tranquilidade" e "Pequenas atitudes para recuperar a tranquilidade em tempos de polarização"

Da indignação à ação

O medo ajuda quando leva a votar, acompanhar quem foi eleito e conversar. Atrapalha quando prende a gente na tela, esperando a próxima ameaça.

Reflexão

Uma pergunta prática: o que posso fazer hoje, no meu alcance real, além de compartilhar raiva? Pode ser conferir uma informação antes de repassar, conversar com alguém que pensa diferente sem tentar humilhá-lo, apoiar uma organização do bairro ou simplesmente fechar o aplicativo e ir dormir.

Perguntas frequentes

O que é doomscrolling?

É o consumo compulsivo de notícias ruins nas redes sociais. A ansiedade leva a checar o celular, o conteúdo alarmante aumenta a sensação de urgência, e a urgência leva a checar de novo.

O algoritmo das redes sociais aumenta a polarização?

Há evidências de que contribui. Num experimento com usuários do Twitter/X, a timeline do algoritmo mostrou mais raiva e hostilidade contra o grupo político rival do que a timeline cronológica, e os leitores passaram a ver o adversário de forma mais negativa.

O que é polarização afetiva?

É quando cresce o carinho pelo próprio grupo político e o desprezo pelo grupo oposto. A identificação partidária passa a funcionar como identidade, criando um nós contra eles.

Como lidar com a ansiedade política nas eleições?

Reserve horários fixos para as notícias, varie as fontes, separe o que já aconteceu do que é só previsão e tire o celular do quarto à noite. Se a ansiedade durar semanas ou atrapalhar o sono e o trabalho, converse com um médico ou psicólogo.

Referências

  1. Milli, S., Carroll, M., Wang, Y., Pandey, S., Zhao, S., Dragan, A. Engagement, User Satisfaction, and the Amplification of Divisive Content on Social Media. arXiv, 2023. Link (abre em uma nova aba)
  2. Huszár, F., Ktena, S. I., O'Brien, C., Belli, L., Schlaikjer, A., Hardt, M. Algorithmic Amplification of Politics on Twitter. PNAS, 2022. Link (abre em uma nova aba)
  3. Ceron, A. et al. Algorithmic Amplification of Politics and Engagement Maximization on Social Media. Link (abre em uma nova aba)
  4. Iyengar, S., Lelkes, Y., Levendusky, M., Malhotra, N., Westwood, S. J. The Origins and Consequences of Affective Polarization in the United States. Annual Review of Political Science. Link (abre em uma nova aba)
  5. Iyengar, S., Sood, G., Lelkes, Y. Affect, Not Ideology: A Social Identity Perspective on Polarization. Public Opinion Quarterly, 2012. Link (abre em uma nova aba)
  6. Estudo sobre ansiedade política e doomscrolling em adultos. Dublin Business School. Link (abre em uma nova aba)
  7. Organização Mundial da Saúde. Understanding the infodemic and misinformation. Link (abre em uma nova aba)
  8. Organização Mundial da Saúde, Europa. Infodemics and misinformation negatively affect people's health behaviours, 2022. Link (abre em uma nova aba)
  9. American Psychological Association. Managing stress related to political change. Link (abre em uma nova aba)
  10. Altay, S., De Angelis, A., Hoes, E. Media literacy tips promoting reliable news improve discernment and enhance trust in traditional media. Communications Psychology, 2024. Link (abre em uma nova aba)
  11. The Potential for Media Literacy to Combat Misinformation: Results of a Rapid Evidence Assessment. International Journal of Communication. Link (abre em uma nova aba)
  12. Iyengar, S., Westwood, S. J. Fear and Loathing across Party Lines: New Evidence on Group Polarization. American Journal of Political Science, 2015. Link (abre em uma nova aba)
  13. Rathje, S., Robertson, C., Brady, W. J., Van Bavel, J. J. People Think That Social Media Platforms Do (but Should Not) Amplify Divisive Content. 2024. Link (abre em uma nova aba)